‘The Closer’: Dave Chappelle cancela o politicamente correto e prova que não há limites para o humor

Dave Chappelle, considerado um dos maiores humoristas de todos os tempos e conhecido por piadas politicamente incorretas está sendo cancelado (mais uma vez, para variar) por conta de The Closer, seu último especial para o serviço de streaming Netflix. Isso porque entidades que defendem os direitos LGBTQIA+ se sentiram ofendidas com as piadas e com o tom humorístico de Dave Chappelle em seu show.

Além disso diversos funcionários da multimilionária Netflix ameaçaram se demitir ou encerrar contratos com a plataforma caso The Closer não fosse excluído. A produtora de uma série chamada Dear White People que eu tive conhecimento agora com essa repercussão, Jaclyn Moore ameaçou se demitir da empresa caso o show não fosse deletado.

A posição oficial de Ted Sarandos, CEO da Netflix

Ted Sarandos por outro lado não parece estar muito incomodado com toda a repercussão negativa que o especial gerou. Através de um e-mail interno vazado pela revista Variety, Ted diz que o último especial de Dave, o Sticks and Stones, também sofreu críticas por parte do público da plataforma, mas endossou que a plataforma trabalha para “apoiar a liberdade criativa” do artista – “ainda que isso signifique que sempre haverá conteúdos na Netflix que algumas pessoas acharão nocivo”.

Quem não lembra da repercussão que o especial de Natal do grupo Porta dos Fundos gerou no Brasil, sendo inclusive pauta na Justiça e resultado em ataques à sede do grupo? Mesmo com toda repercussão negativa a plataforma não removeu o especial, e isso consolida a Netflix como uma verdadeira defensora da liberdade de expressão, doa a quem doer.

Sarandos ainda diz: “Nunca é uma boa sensação quando pessoas estão sofrendo, especialmente os nossos colegas, então eu quis dar a vocês algum contexto adicional”, disse Sarandos. “Vocês devem estar avisados que algum talento pode se unir a terceiros para nos pedir para remover a produção nos próximos dias, o que não faremos”.

Mas por que a polêmica, sendo Chapelle um humorista politicamente incorreto? (Opinião)

Chapelle não é tido como um dos maiores humoristas de todos os tempos à toa, sua carreira longínqua em bares e clubes de stand-up fez de Chapelle o negro mais bem sucedido no ramo, isso porque em um país extremamente racializado como os EUA, um homem negro falar sobre vários temas, pautas e tópicos políticos diferentes abrindo mão de uma agenda é algo inaceitável por uma pequena parte de americanos, geralmente americanos de classe média em busca de uma identidade para se enquadrar em algum grupo ideológico.

Em determinado momento Dave cita uma briga entre ele e um homem trans aonde o homem diria “Meu povo” e Dave responde: “Desculpe, o que quer dizer com meu povo?” e o homem responde dizendo que “seu povo havia décadas de sofrimento”. Neste momento Dave diz que olhou para um homem negro gay e riu, e o show seguiu. Mesmo com piadas pesadas, com um tom meramente sarcástico aonde ele chega à se oferecer para liderar o movimento feminista em troca de um ‘oral’ de todas as feministas, Dave deixa bem claro de forma sutil (como todo bom humorista deve fazer) à todo tempo que a briga dele nunca foi com pessoas trans e sim contra os excessos de grupos que se dizem representar toda a comunidade LGBTQIA+, e principalmente contra os bons samaritanos do Twitter à quem ele manda “ir se fod*r”.

A importância de Dave Chappelle para os dias atuais

Dave Chappelle construiu uma vida de muito luxo ao longo da sua vida, uma soma de um talento único com uma boa gestão de carreira e negócios, possibilitando o humorista hoje poder escolher trabalhos e rejeitar acordos de 50 milhões de dólares como fez. O famoso humor negro sempre existiu e possui força maior nos EUA e no Reino Unido, aqui no Brasil não muita, pois se tratar de um país com histórico de censuras e autoritarismo, o Brasil nunca foi muito aberto a piadas que fugissem do gosto da família tradicional brasileira que sempre se preocupou com a moral e os bons costumes, nomes como Costinha, Ary Fontoura e até Paulinho Gogó com sua piadas de “tiozão” foram o máximo que o Brasil chegou a consumir do tal humor negro no passado. Foi com o boom do stand-up comedy no Brasil na metade dos anos 2000’s que nomes como Rafinha Bastos, Danilo Gentili, Léo Lins vieram à tona, quem não lembra da cruzada que Rafinha Bastos travou contra Wanessa Camargo e toda imprensa ao fazer uma piada com seu filho que ainda estava em seu ventre? Ou com Danilo Gentili quando passou uma moção de censura dentro da cueca, embalou e enviou de volta para a deputada Maria do Rosário? Ou Léo Lins que semana sim, semana não está envolvido em polêmicas por piadas? Recentemente inclusive o humorista foi condenado a pagar 5 mil reais à Thais Carla, dançarina de Anitta conhecida por defender o movimento “Body Positive”.

Depois que as marcas passaram a não mais atender o público e se submeteram ao tribunal do politicamente correto e ao Twitter, qualquer indivíduo até ontem sem qualquer relevância passa a ditar o que é certo, errado e o que pode ou não ser dito sobre pessoas no geral, tudo isso disfarçado de uma falsa virtude substituída por siglas, nomes ou nomenclaturas que ninguém sabe do que se trata, e ter um humorista da envergadura e representatividade de Dave Chapelle apontando com bom humor toda essa hipocrisia se faz cada dia mais necessário, pois aos poucos a liberdade de expressão dos artistas vem sendo perdida, junto a toda criatividade e originalidade.

The Closer – Crítica

Depois de uma série de problemas envolvendo minorias e grupos dos mais diversos segmentos dos EUA, Chapelle faz seu “encerramento”, que não é bem um encerramento como ele mesmo diz no show, para se dedicar mais aos palcos, iniciando seu show com uma homenagem às vítimas da COVID-19 e às suas famílias.

Chapelle conta um pouco de sua experiência (com muito humor) em ter pego coronavírus, em meio a comentários sobre como ele pode ter matado muitas pessoas pelo Texas por ter cumprimentado, ele diz que se trancou em seu quarto e passou sua quarentena assistindo vídeos de pessoas negras socando pessoas asiáticas, trazendo à tona as inúmeras piadas feitas com chineses no auge da pandemia. Seguindo de piadas aonde o próprio diz ser machista, porém entender o feminismo ele diz que um dia chamou uma amiga para uma marcha das mulheres e a mesma havia dito que desejava que a polícia jogasse gás lacrimogêneo “naquelas mulheres brancas”. Mas o ponto alto são as piadas sobre trans que encerra com mais ou menos uns 20 minutos de tributo de Dave Chapelle à Dafne, uma amiga trans que ele fez em uma de suas apresentações que teve sua vida virada do avesso após defender Chapelle de acusações de transfobia. Dafne se atirou de um telhado se suicidando e deixando pra trás um filho, que Chapelle apadrinhou. The Closer não é seu melhor show, isso é um fato, assistam Sticks and Stones e irão concordar comigo, porém mais do que nunca The Closer é necessário e termina com uma mensagem importante em defesa da liberdade de expressão, liberdade artística e principalmente em defesa da vida, nos mostrando que pessoas podem matar não só com as mãos mas com palavras. Chapelle jamais se suicidaria por um cancelamento mas imagine você ser um homossexual e da noite para o dia ser atacado por todos os homossexuais do mundo só por não concordar com tudo o que eles pensam; confundir a arte com uma opinião pessoal é, além de burro, perigoso, pois hoje cancelam algo que você não gosta e até mesmo despreza, mas amanhã o cancelado pode ser você.

Há um ano atrás o Brasil era dividido entre religiosos que fizeram de tudo para retirar um filme da Netflix que ofendia sua fé e pessoas de esquerda que defendiam a tal liberdade de expressão, mas liberdade de expressão seletiva não é liberdade de expressão e sim liberdade de ofender sem ser ofendido. Precisamos ter maturidade para viver em uma sociedade aonde estaremos dispostos a rir daquilo que achamos ridículo ao mesmo tempo que também podemos ser a piada.

Para o show eu daria (se eu tivesse esse costume) 7 para as piadas e 10 pela coragem e pelos temas abordados.