Unabomber: a investigação real por trás do filme da Netflix

Como foi a investigação real por trás do filme Unabomber, da Netflix.

Unabomber: a investigação real por trás do filme da Netflix

Uma das pistas mais importantes para o FBI chegar ao Unabomber não veio de uma bomba. Veio de um texto antigo do próprio Ted Kaczynski. Ted tinha escrito esse texto mais de duas décadas antes. Mesmo assim, as ideias e até algumas expressões lembravam muito o manifesto do Unabomber.

Essa investigação é uma das bases do filme Unabomber, que chegou à Netflix em 25 de setembro. A caçada é real, mas os agentes do FBI que aparecem na produção são versões de ficção da equipe que trabalhou no caso.

O ator Jacob Tremblay faz Ted na juventude. O ator Russell Crowe vive o psicólogo Henry Murray, professor de Harvard. E a atriz Shailene Woodley faz Joanne Miller, uma agente do FBI criada para o filme.

O caso começou muito antes de alguém desconfiar de Ted. A primeira bomba ligada ao Unabomber explodiu em 1978, e os ataques continuaram por 17 anos. Logo no ano seguinte, o FBI montou uma força-tarefa com outros dois órgãos americanos. Um deles cuida de armas e explosivos, e o outro é o serviço de inspeção do correio.

O caso ganhou o nome de UNABOM, de University and Airline Bombing. Em inglês, isso quer dizer ataques a bomba contra universidades e companhias aéreas, que estavam entre os primeiros alvos.

Daqui para frente, o texto conta como a investigação terminou, e isso inclui coisas que aparecem no filme.

Como o FBI chegou a Ted Kaczynski

O grande problema dos investigadores era a falta de pistas úteis. O Unabomber montava as bombas com materiais difíceis de rastrear. E não fazia parte de nenhuma organização que pudesse levar a polícia até ele.

Ao todo, os investigadores ligaram 16 bombas ao Unabomber. Três pessoas morreram e outras ficaram feridas.

A investigação só mudou de rumo em 1995. Naquele ano, o Unabomber mandou para a imprensa um manifesto com cerca de 35 mil palavras. O manifesto se chamava Industrial Society and Its Future (A Sociedade Industrial e Seu Futuro). Nele, o Unabomber atacava a sociedade industrial e o avanço da tecnologia.

O Unabomber queria ver o manifesto publicado, e o governo americano discutiu os riscos de aceitar a exigência de um terrorista. No fim, o diretor do FBI Louis Freeh e a procuradora-geral Janet Reno aprovaram a publicação. A esperança era que alguém lesse o manifesto e reconhecesse quem tinha escrito aquilo.

O manifesto saiu em 19 de setembro daquele ano, num encarte especial do jornal The Washington Post. Nos meses seguintes, mais de 50 mil pessoas procuraram a linha criada para receber informações sobre o caso.

Uma dessas pistas veio da família de Ted, e foi ela que mudou a investigação. Ted tinha um irmão, David Kaczynski. David começou a desconfiar que o manifesto podia ter sido escrito por seu irmão.

David era casado com Linda Patrik, que também tinha notado semelhanças entre aquelas ideias e o que Ted escrevia e dizia. Um advogado da família procurou o FBI e entregou textos antigos de Ted para comparação.

Com isso, os investigadores ganharam uma coisa que faltava desde o começo. Pela primeira vez, o FBI tinha um suspeito conhecido e uma boa quantidade de texto escrito por ele. Dava para colocar esse material lado a lado com o manifesto.

O ensaio de 1971 que chamou a atenção do FBI

Os papéis entregues pela família incluíam um ensaio de 23 páginas que Ted escreveu por volta de 1971. Segundo o FBI, o agente que recebeu o material notou as semelhanças com o manifesto logo de cara.

O agente Terry Turchie era um dos responsáveis pela força-tarefa. Uma expressão sobre a “esfera da liberdade humana” chamou a atenção dele em especial.

O ensaio já trazia ideias que Ted ia retomar muitos anos depois. Ted defendia que o avanço da ciência e da tecnologia ia acabar limitando a liberdade de cada pessoa. O ensaio também discutia formas de cortar o financiamento de certas áreas da pesquisa científica.

A comparação foi muito além de uma frase parecida. Os detalhes estão na declaração juramentada escrita por Turchie. Foi com esse documento que o FBI pediu à Justiça autorização para revistar a cabana onde Ted morava, no estado de Montana.

A análise ficou com o agente do FBI James R. Fitzgerald. Fitzgerald encontrou mais de 160 pontos de semelhança entre os textos comparados. Dos 47 parágrafos do ensaio, 35 tratavam de assuntos que também aparecem em trechos do manifesto.

As semelhanças apareciam no vocabulário, no estilo, nos temas e em construções de frase bem específicas. Os dois textos falavam, por exemplo, de vigilância eletrônica, controle do comportamento, propaganda, tecnologia e perda de liberdade.

Junto com o ensaio, o FBI recebeu de David dezenas de cartas que Ted tinha mandado para o irmão ao longo dos anos. Os investigadores passaram a comparar tudo isso com as cartas do Unabomber e com o manifesto.

Sozinho, o ensaio não provava quem era o autor. Mas ganhou peso quando se juntou às cartas e ao que se sabia da vida de Ted. Ou seja, o caso não se resolveu só porque um agente achou uma frase igual. A suspeita foi ficando mais forte com a soma de padrões de linguagem, informações sobre Ted e outros elementos.

Foi esse ensaio que levou à prisão de Ted Kaczynski?

Sozinho, não. O ensaio ajudou a convencer os investigadores de que estavam olhando para o suspeito certo. E entrou no conjunto de informações que o FBI usou para conseguir um mandado de busca.

Na declaração entregue à Justiça, a análise dos textos vinha junto com dados sobre a vida de Ted e informações ligadas aos ataques.

Em 3 de abril de 1996, os agentes chegaram à pequena cabana onde Ted vivia, perto da cidade de Lincoln. Segundo o próprio FBI, eles tinham autorização para revistar o lugar, mas ainda precisavam achar provas físicas que ligassem Ted aos ataques.

O que estava dentro da cabana mudou o caso. Os agentes acharam material para fazer bombas e peças parecidas com as que tinham sido recolhidas depois dos ataques. Também acharam uma bomba pronta e milhares de páginas escritas à mão. O FBI diz que esses papéis traziam descrições e confissões ligadas aos 16 ataques.

Ted foi preso no mesmo dia. Em janeiro de 1998, ele se declarou culpado na Justiça federal americana e acabou condenado à prisão perpétua.

Os experimentos de Harvard mostrados no filme aconteceram?

Aconteceram, sim. O filme também acompanha Ted na juventude, e essa parte vem de fatos reais.

Ted entrou em Harvard aos 16 anos, em 1958. Lá, ele participou de estudos feitos pelo psicólogo Henry Murray, que no filme é o personagem de Russell Crowe. O filme usa esses experimentos para mostrar como Ted foi se formando.

Ted participou dos estudos, e isso está documentado. Mas não dá para tratar como fato histórico a ideia de que os experimentos explicam ou causaram os crimes de anos depois. O filme encaixa esses fatos numa história dramática sobre a formação de Ted. Já as fontes que existem não permitem afirmar essa ligação direta.

Depois de Harvard, Ted fez pós-graduação em matemática na Universidade de Michigan. É a mesma universidade que hoje guarda a coleção de documentos dele. Em seguida, Ted virou professor assistente na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e largou o cargo em 1969.

No começo dos anos 1970, Ted foi morar numa cabana sem luz elétrica nem água encanada, perto de Lincoln. Foi dessa cabana que saíram os ataques que começaram em 1978. Anos depois, foi até essa mesma cabana que a comparação entre os textos de Ted e o manifesto levou o FBI.

Unabomber estreou na Netflix em 25 de setembro.